Mulheres quentes em Miami

Caixa de Pandora

2019.05.20 21:53 jwachowski Caixa de Pandora

Estava sentado na calçada pois o banco do ponto de ônibus estava quebrado. Foi acender o ultimo cigarro do maço quando este quebrou em sua mão. O que mais poderia dar errado? Fumou sem filtro mesmo. Sentiu a brasa queimar sua língua enquanto o sol escaldante do meio dia queimava seus pensamentos ou o que ainda não tinha sido deixado em cinzas pela preocupação em arrumar algum trabalho, com as contas vencendo todo mês e a vergonha de ser sustentado por familiares e amigos. Amigos? Quase nenhum. Acho que um pra não ser injusto.
Será deus seu ultimo amigo? Gostaria de encontrar com ele pra perguntar umas coisinhas sem relevância. Esqueceu de nós ou apenas cansou e foi pra Miami? Não importa mais nada. Depois que se abriu a caixa de Pandora e esqueceram aquele troço lá dentro, tudo mais aqui embaixo deu errado. É só uma fase. Essa crise vai passar. Vote consciente é o que eles dizem. Como ficar consciente quando se tem fome medo e pressa?
As pessoas passam por aquele ser ali sentado no meio fio em frente ao ponto de ônibus. Uma senhorinha lhe estende dois reais. Ele pega sem agradecer. Aceita a condição. A cabeça se abaixa novamente. As lágrimas caem no asfalto quente que as absorve rapidamente.
Acabando de fumar sentiu no seu braço uma beliscadinha. Era um gafanhoto verde contrastando com o cinza da paisagem, das pessoas e dele mesmo. Lembrou que a mãe chamava aquele bicho de esperança. Se fosse aquele bege ela matava mas o verde não. A mãe pegava a esperança na mão e levava até o matinho mais próximo de casa. Depois voltava sorridente a sonhar com dia melhores. Quem dera ter metade dessa força. Era apenas mais um que acreditou na promessa de que tudo iria melhorar depois do fim do ano. Não acredita mais em nada, não acredita mais em ninguém.
Olhou o verde agarrado em seu braço queimado pelo sol. Ao tentar pegar o bicho, este lhe saltou para o meio do asfalto e foi imediatamente esmagado pelo pneu do ônibus que acabara de chegar no ponto.
Subiu as escadas do veículo e passou o cartão que falhou. Falhou de novo de novo e de novo. Falhou até chegar no próximo ponto onde desceu com as mãos na cabeça se perguntando novamente o que mais poderia dar errado?
Sentou novamente no meio fio. Era o fim. Se sentia um inseto. Era um inseto. parecia que tinha acordado dentro de um sonho intranquilo. E se fosse tudo um sonho mesmo? Ele não morreria mas acordaria em sua cama com sua mulher nua ao seu lado. Ventilador ligado no três deixando o quarto gelado. Há quanto tempo não acordava ao lado dela? Desde que deixou de leva-la ao ponto onde pegava o busão das seis para lavar a louça da noite anterior na casa dos outros às oito. Não sabia se sentia mais vergonha de ser sustentado pela mulher ou de não ter mais força de levantar da cama.
Ali sentado no meio fim, decidiu acordar desse sonho intranquilo e vergonhoso. Se levantou e pulou que nem gafanhoto na frente do ônibus. O para-choque nem tremeu com o impacto. O sangue jorrou no para-brisa. O motorista ligou o limpa vidros, pisou no acelerador novamente e continuou seu curso.
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